doutordoom
10/03/2008, 02:09
Ano passado fui surpreendido pela enorme qualidade da animação Ratatoille. Jamais achei que um filme que tem como premissa um Ratinho cozinheiro pudesse ter um profundidade tão grande em seu roteiro.
Torci muito para que o filme ganhasse o Oscar de roteiro original, mas infelizmente Juno acabou levando. Obviamente isso praticamente me obrigou a ir ao cinema assistir Juno para constatar se a história da adolescente grávida superada a jornada do roedor Remy.
Vou colocar as críticas feitas pelo Pablo do Cinema em Cena (morra Trash :smile)com o objetivo de informação e pra facilitar minha avaliação (leiam se quiserem) já que concordo com muito das duas críticas:
http://www.starstore.com/acatalog/ratatouille-one-sheet-l.jpg
Ratatouille
Direção: Brad Bird
Roteiro: Brad Bird
Elenco: Peter O`Toole (Anton Ego - voz), Ian Holm (Skinner - voz), Janeane Garofalo (Collette - voz), Brian Dennehy (Django - voz), Brad Garrett (Auguste Gusteau - voz), Patton Oswalt (Remy - voz), Lou Romano (Linguini - voz), Peter Sohn (Emile - voz)
Sinopse: Um ambicioso ratinho francês chamado Remy sonha em se tornar um grande chef de cozinha. Para realizar seu sonho, Remy leva sua família do interior da França para o coração de Paris. Nessa jornada, acaba chegando por mero acaso logo no restaurante do seu chef predileto, Auguste Gusteau. Quando Remy ajuda a criar a receita de uma sopa única, acaba dando início a uma incrível e emocionante corrida de ratos em toda a cidade, o que permite a ele conquistar o impossível e o seu verdadeiro dom.
À primeira vista, a mensagem defendida por Ratatouille (“Qualquer um pode cozinhar.”) pode soar como contradição direta àquela divulgada por Os Incríveis, brilhante trabalho anterior do cineasta Brad Bird (“Eles sempre encontram um meio de celebrar a mediocridade!”) – afinal, como dizia Síndrome naquele filme, se “todos forem Super” (leia-se: souberem cozinhar), “ninguém mais será” (leia-se: cozinhar bem será algo prosaico, sem valor). Aos poucos, porém, o verdadeiro significado por trás das palavras do celebrado chef Gusteau (voz de Brad Garrett) se revela com clareza, estabelecendo uma fascinante continuidade temática com Os Incríveis: nem todos podem ser “especiais”, mas o talento e o magnífico podem surgir em qualquer lugar, cabendo ao abençoado com este dom esforçar-se para refinar ao máximo suas habilidades – e não fazê-lo seria algo tão criminoso quanto contentar-se com o banal.
Este é o risco que corre Remy (Oswalt), cujo talento para a culinária transforma-o em um preciosista admirável, um verdadeiro artista sempre comprometido com sua Criação: testemunhar uma sopa sendo arruinada por um cozinheiro sem talento, por exemplo, pode se transformar numa verdadeira tortura para este brilhante chef amador – e confesso que sua habilidade natural para criar receitas e combinar sabores aparentemente díspares me fez lembrar do amaldiçoado (ou abençoado, dependendo da interpretação) protagonista do excepcional Perfume. Aliás, assim como Jean-Baptiste Grenouille, Remy tem uma origem absurdamente humilde que serve como imenso obstáculo à plena realização de seus sonhos: ele é um rato. E se há algo que definitivamente não é bem-vindo na cozinha de um restaurante luxuoso é um roedor.
Evitando transformar seu herói em uma criatura excessivamente fofinha que nos faça esquecer de sua natureza asquerosa (e falo como um ser humano normal que detestaria descobrir que um rato preparou sua comida), Ratatouille torna Remy simpático, mas não a ponto de evitar que sintamos nojo diante da visão de dezenas de ratazanas percorrendo as prateleiras de uma despensa ou correndo pela sala de uma pequena casa. Da mesma forma, a equipe de Brad Bird mantém a lógica visual de Os Incríveis ao criar personagens humanos com características físicas marcantes que ajudam a estabelecer suas personalidades, fugindo de uma estética realista que tornaria tudo aborrecido: assim, o antipático Skinner (Holm) surge como um baixinho cabeçudo com um presunçoso bigodinho ralo, ao passo que o inseguro Linguini (Romano) exibe sua despretensão já através de seu narigão arredondado e dos cabelos desgrenhados. E se Colette (Garofalo) foge do padrão “cinturinha excessivamente fina, quadril largo e seios arredondados” tão freqüentemente empregados na criação de personagens femininas nas animações, isto não impede que ela surja atraente à sua própria maneira, substituindo o corpo de pin-up por uma personalidade forte que combina perfeitamente com sua luta para ser reconhecida por seus talentos culinários em um universo dominado por homens. Finalmente, a figura altiva mas sombria do crítico Anton Ego (O’Toole), com seus olhos fundos e braços longos, torna-o imediatamente intimidador sem transformá-lo em um monstro, o que é fundamental para o propósito da narrativa (mais sobre isso em um minuto).
Da mesma maneira, a qualidade da animação é impecável, como já poderíamos esperar da Pixar: observem, por exemplo, a maneira com que Linguini se movimenta quando controlado por Remy, lembrando claramente uma marionete, e perceba, também, a sutileza nos gestos de Skinner ao girar a garrafa de vinho cuidadosamente ao servir uma taça ao rapaz (os enólogos certamente apreciarão o detalhe) ou a expressão torturada de Colette ao lutar para conter seu impulso de desferir um tapa em alguém. Só é lamentável que, ao final dos créditos, os artistas da Pixar sintam a necessidade de alfinetar a técnica de motion capture através de um “certificado de garantia” que afirma que tudo foi criado por animação, sem a utilização de atores ligados a sensores: afinal, como artista que migrou da animação tradicional para a computadorizada (é dele, o clássico moderno O Gigante de Ferro), Brad Bird deveria ser a última pessoa a menosprezar novas formas de criar Arte – e o motion capture, afinal de contas, já originou obras-primas como O Expresso Polar e A Casa Monstro.
Provocações infantis à parte, o fato é que o design de produção de Ratatouille oferece um verdadeiro espetáculo: a Paris apresentada pelo filme é uma visão de tirar o fôlego, mas o longa não se esquece também de seus cenários interiores, concebendo-os de forma a auxiliar o roteiro a estabelecer o clima necessário em cada cena, como podemos constatar pelo escritório triste e amontoado de papéis utilizado pelo deprimido inspetor sanitário (num plano que dura 15 segundos, se muito), pelo restaurante iluminado de maneira aconchegante e elegante e, é claro, pelo espaço de trabalho de Anton Ego, com seu formato de caixão, o altar dedicado a si mesmo e a máquina de escrever que se assemelha a uma ameaçadora caveira.
E já que citei Ego pela segunda vez, é inevitável deter-me um pouco mais neste que se tornou meu personagem favorito do filme, por motivos óbvios (sua figura tornou-se, inclusive, meu avatar no MSN e no fórum do Cinema em Cena): inicialmente apresentado como um indivíduo arrogante e antipático que parece sentir prazer em destruir o trabalho alheio, Ego (sim, sim, eu sei) talvez seja interpretado como um ataque frontal à Crítica por aqueles que já têm uma tendência natural a condenar a natureza do trabalho destes profissionais. No entanto, creio que estas pessoas estarão equivocadas, já que, ao contrário do ataque infantil feito por M. Night Shyamalan em seu terrível A Dama na Água, Brad Bird acaba transformando Anton Ego naquele que deveria ser o exemplo perfeito do crítico que merece respeito irrestrito (talvez ele pudesse ter um visual menos... hum... nosferático, mas tudo bem). Explico: é fato que Ego parece determinado a destruir a reputação do Gusteau’s, o que poderia ser visto superficialmente como algo mesquinho e reprovável, revelando um senso de auto-importância que o motivaria a agir contra o restaurante. Porém, é então que ocorre a seguinte – e extremamente reveladora – conversa entre Linguini e o crítico:
- Você parece magro demais para alguém que diz gostar de comida. – provoca o primeiro.
- Eu não “gosto” de comida. Eu amo comida! Mas quando não gosto do que provei, eu não engulo.
Este diálogo é um reflexo perfeito da acusação de que o critico parece detestar a área que estuda (no meu caso, Cinema, obviamente), sentindo prazer descomedido em destruir as obras que analisa. Não duvido de que haja (maus) profissionais que de fato extravasem suas frustrações pessoais nas análises que publicam, mas o bom crítico é aquele que, em primeiro lugar, ama a Arte com a qual trabalha – e como qualquer pessoa que dedica amor incondicional a alguma coisa, o crítico simplesmente não pode tolerar o desrespeito ao objeto de sua paixão. Ver alguém tratar o Cinema como simples forma de ganhar fama e dinheiro ao mesmo tempo em que realiza filmes rasteiros que parecem ter sido criados sem qualquer interesse em seus aspectos estéticos e/ou narrativos é algo que, para o amante da Sétima Arte, se assemelha à reação de um religioso ao ver alguém defecar no altar de uma Igreja. E é isto que move Anton Ego: por amar a Culinária, ele despreza, inicialmente, a afirmação de Gusteau de que “qualquer um pode cozinhar” (só mais tarde ele compreenderá o que o chef quis dizer com isso) e, posteriormente, ele se enraivece ao constatar que o nome do restaurante está sendo emprestado à divulgação de comida congelada (o similar gastronômico dos filmes de Rob Schneider, imagino). No entanto, ao se deparar com a verdadeira Arte, o bom critico não hesita em defendê-la com unhas e dentes, mesmo que para isso corra o risco de sacrificar sua posição, afastar leitores ou – o inimaginável! – assumir posturas que entrem em contradição direta com posições passadas (serei capaz de defender Schneider quando este fizer um bom filme?).
Como você pode perceber, Ratatouille, assim como Os Incríveis e O Gigante de Ferro, representa não apenas uma diversão imperdível (suas seqüências de ação são sensacionais e seu senso de humor é invejável) como também pode dar origem a discussões estimulantes sobre a natureza da Arte, do artista e do estudioso – e há até mesmo uma interessante leitura sobre o racismo em sua narrativa. Em outras palavras, este é o tipo de prato cujos méritos Anton Ego não hesitaria um segundo em alardear em alto e bom som. E, portanto, sigo aqui o exemplo do mestre.
06 de Julho de 2007
Link:http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_critica=6807&id_filme=2150&aba=critica
http://www.100video.com.br/UserFiles/Image/Filmes%202/juno_cartaz2.jpg
Juno
Direção: Jason Reitman
Roteiro: Diablo Cody
Elenco: Jennifer Garner, Allison Janney, Jason Bateman, Ellen Page (Juno), Michael Cera (Bleeker)
Sinopse: Uma adolescente precisa enfrentar uma gravidez não planejada e tomar difíceis decisões.
Estréia: 14/12/2007 (Original) 22/2/2008 (Brasil)
Seria fantástico se as pessoas conversassem, em seu dia-a-dia, como os personagens de Juno, construindo diálogos que combinam uma estrutura elegante com um conteúdo rico em referências e um humor cortante e preciso. Oscilando entre a irreverência intelectualizada de obras como Harry e Sally – Feitos um para o Outro e a filosofia pop barata de Kevin Smith (que posteriormente revelaria sua natureza de mágico-de-um-truque-só), o roteiro deste longa merece créditos, portanto, pela maneira com que seus personagens se comunicam, o que o torna suficientemente charmoso para que seus defeitos possam passar despercebidos.
Escrito pela ex-stripper Diablo Cody, que aqui estréia como roteirista, o filme acompanha a trajetória da adolescente Juno MacGuff (Page), que, certo dia, descobre ter engravidado depois de uma única noite de sexo com seu melhor amigo, o tímido Paulie Bleeker (Cera, de Superbad). Depois de considerar brevemente a possibilidade de um aborto, a garota acaba optando por entregar o bebê a um casal que não consegue ter filhos, Mark e Vanessa Loring (Bateman e Garner), sendo apoiada na decisão por seu pai, Mac (Simmons), e sua madrasta, Bren (Janney).
Demonstrando uma clara e presunçosa satisfação com a suposta sofisticação de seus diálogos, o roteiro de Cody falha, em certo ponto, por permitir que constatemos que seus personagens sabem que conversam de maneira diferenciada. Ao contrário do Harry vivido por Billy Crystal no já citado Harry e Sally ou dos balconistas criados por Kevin Smith em seu filme de estréia, as criaturas que povoam Juno parecem ter consciência de que estão em um filme e sendo observadas pelo público, soltando piadinhas não porque querem comunicar algo, mas sim porque desejam provocar o riso do espectador. Além disso, como todos falam de maneira similar (com exceção da personagem de Garner, sobre a qual comentarei mais adiante), os discursos homogêneos falham por não estabelecerem as particularidades de cada indivíduo, o que é decepcionante. Aliás, creio que o sobrenome da família de Juno funciona como um verdadeiro ato falho da roteirista, remetendo ao mcguffin de Hitchcock e escancarando que aquelas pessoas não importam de fato, funcionando como mera desculpa para que Cody possa exibir seu talento e seu senso de humor irreverente.
Outro tropeço clássico de estreante cometido por Cody é confundir sua própria personalidade e sua experiência de vida com a de sua protagonista: Juno freqüentemente faz referências a elementos que não são de sua época (Diana Ross, Thundercats), mas sim contemporâneos da roteirista, o que a impede de se transformar numa pessoa real e a mantém apenas como a personagem de um filme. Aliás, este é o verdadeiro grande problema de Juno: quase ninguém ali se comporta como uma figura tridimensional, mas como simples bonecos programados para repetirem as falas afiadas de Cody – e isto prejudica o filme especialmente em seu primeiro ato, quando a calma e a ironia de Juno diante de sua gravidez soam implausíveis demais, sendo rivalizadas apenas pela reação absurda de seu pai diante da notícia, quando imediatamente faz uma piadinha em vez de se mostrar minimamente preocupado com o que aquilo significa para a vida de sua filha adolescente.
Felizmente para o filme e para o espectador, Juno conta com um trunfo na figura da pequena e adorável Ellen Page, que eu já havia elogiado fartamente ao escrever sobre MeninaMá.com, em 2006: entregando os diálogos auto-congratulatórios de Diablo Cody da maneira mais natural possível, ela encarna a natureza excessivamente crítica da personagem-título (algo comum à maioria dos adolescentes), mas nos convence de aquela garota em particular consegue manifestar este seu descaso pelos adultos de forma incrivelmente articulada. Porém, o fator mais importante na composição de Page reside nos indícios sutis de imaturidade da personagem: Juno pode se julgar sofisticada e precoce, mas está longe de ser tão madura quanto gosta de acreditar – e, assim, o roteiro acerta ao mostrar que boa parte das previsões feitas pela madrasta da garota vem a se confirmar, já que a menina não apenas sofre como também magoa outras pessoas em função de sua incapacidade de perceber a complexidade das situações nas quais se envolve. (E quando ela escreve um bilhete em seu carro, confesso que temi se tratar de mais uma tirada sarcástica, sendo agradavelmente surpreendido ao constatar se tratar de algo que uma criança escreveria.)
Em contrapartida, para quem se julga tão criativa, Cody se entrega freqüentemente a recursos terrivelmente formulaicos ou simplesmente mal desenvolvidos, como a paixão de Juno por Paulie ou – ainda pior – a crise vivida pelo casal Loring, que parece ter sido introduzida no roteiro depois que a autora percebeu a ausência de qualquer conflito em sua história. Porém, mais uma vez um desastre é evitado graças ao elenco, já que Jason Bateman e Jennifer Garner (especialmente esta última) criam os únicos personagens tridimensionais da narrativa. Surgindo inicialmente tensa e metódica, Vanessa é uma adulta responsável (a única em todo o filme) que não usa falas repletas de sarcasmo como escudo contra o mundo: ela sofre, faz auto-questionamentos e compreende plenamente as dificuldades da situação na qual mergulha – e Garner se mostra tocante ao criar coragem para pedir para tocar na barriga de Juno ou ao demonstrar uma tristeza quase imperceptível quando a menina faz um comentário cruel (sem perceber) sobre sua “sorte” por não estar grávida. Além disso, é aqui que Diablo Cody realmente acerta como roteirista ao criar um arco dramático sutil que talvez nem seja percebido por boa parte dos espectadores: inicialmente obcecada com a disciplina e a organização, Vanessa só parece realmente feliz quando finalmente a vemos em meio a uma bagunça gigantesca que denuncia sua nova condição como mulher (e ser humano).
Enquanto isso, Bateman também surpreende com a riqueza de sua performance: observem, por exemplo, o momento em que Juno pergunta se ele está entusiasmado com a idéia de ser pai e Mark responde positivamente sem conseguir ocultar uma clara insegurança em seu olhar. Da mesma maneira, sua fragilidade emocional e sua imaturidade o contrapõem de maneira inteligente à esposa – e sua paixonite por Juno funciona dramaticamente justamente por expor sua incapacidade de perceber que esta é praticamente uma criança, já que ele se deixa confundir pelos interesses que dividem. Por outro lado, o filme peca por não ilustrar com clareza o peso que sua relação com Vanessa representa, o que é uma pena.
Enriquecido por uma trilha tremendamente doce e evocativa que investe em canções que exibem uma infantilidade reveladora em suas letras e melodias (especialmente aquelas interpretadas pelo Moldy Peaches), Juno finalmente supera seu primeiro ato artificial e incômodo, tornando-se gradualmente mais natural em seu desenvolvimento, quando finalmente nos acostumamos à artificialidade de seus diálogos. E se a direção de Jason Reitman não compromete, tampouco se revela inspirada (a câmera lenta no momento do parto é embaraçosa) – e sua indicação ao Oscar é um dos poucos absurdos realmente ofensivos da cerimônia de 2008.
Divertido e relativamente tocante (graças, principalmente, a Page e Garner), Juno é um filme que jamais alcança a força dramática de Pequena Miss Sunshine, com o qual vem sendo insistente e equivocadamente comparado, mas que consegue encantar ao seu próprio modo. Isto não justifica sua inclusão entre os supostos cinco melhores filmes do ano, mas o fato de ter inspirado reações exageradas por parte da Academia também não deve ser usado contra este longa que, se encarado de maneira objetiva, tem mais acertos do que erros.
22 de Fevereiro de 2008
Link:http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_critica=7032&id_filme=4920&aba=critica
Comparando os Roteiros (contém Spoilers)
Sem rodeios eu já digo que acho o roteiro de Ratatouille superior ao de Juno.
Considero Juno um bom filme, que tem sua força principal no carisma de sua protagonista e em seus diálogos afiados. O roteiro em si não tem nada de novo ou tão acima da média. Como foi percebido pelo Pablo na crítica dele, mesmo que os diálogos do filme sejam ótimos, tudo soa muito artificial.
A situação da gravidez é tratada de uma forma tão displicente por todos do filme que chega a ser surreal. Juno passa pelo filme todo sem praticamente se dar conta da importância de uma gravidez. E fora a personagem de Jennifer Gardner, ninguém mais no filme parece perceber isso.
A frieza com que Juno planeja simplesmente entregar a criança para outros pais chega a ser assustadora. Passei o fime todo esperando alguma evolução na personalidade de Juno, mas no fim tudo o que temos é uma protagonista que apesar de ter vivido o drama de ser mãe solteira não aprendeu nada e ainda terminou exatamente como começou na história.
No fim, não parece haver nenhuma mensagem, nenhuma constatação, nenhuma evolução real da história. Enfim, achei o final do filme bem vazio.
Já Ratatouille é totalmente original. Uma idéia original que tem uma concepção tão absurda que serve de material para a própria resolução da história do filme. Basta ver a reação dos cozinheiros (principalmente Colette) frente a revelação de Linguini no fim da película.
E mais, Ratatouille jamais cai no lugar comum. Por mais que o telespectador pense que vai "adivinhar" alguns momentos da história ou que se tenha a impressão de que veremos algum momento genérico presente em qualquer animação, o que temos são situações sempre inesperadas ou interessantes que fogem a qualquer clichê do gênero.
Não que o filme fuja do "Final Feliz" afinal, ainda é uma animação, mas seu final é o mais diferenciado possível, emplacando várias mensagens de poder mostrando que de algo de origem simples e comum pode surgir algo maravilhoso e inesperado desde que cada um se esforçe e siga seu próprio caminho sem esquecer suas origens ou permanecer confortavelmente à sombra de outros.
Resumindo, não há como não se admirar a forma com a animação consegue ser tal original, profunda e sincera em dentro de um sistema tão pasteurizado quanto Hollywood (que justamente vive tempos tão pouco criativos)
Em sua conclusão Ratatoiuille tem dois momentos marcantes: Remy se recusando a companhar Linguini ou sua família, adotando seu próprio caminho, e o monólogo de Ego ao fazer a crítica do restaurante:
“De várias maneiras, o trabalho de um crítico é fácil. Nós arriscamos muito pouco e, a despeito disso, desfrutamos de uma vantagem sobre aqueles que submetem seu trabalho, e a si próprios, ao nosso julgamento. Nós nos refestelamos escrevendo crítica negativa, que é divertida de escrever e de ler. Mas a verdade amarga que nós, críticos, temos que encarar é o fato de que, no grande esquema das coisas, até o lixo medíocre tem mais significado do que a nossa crítica assim o designando. Mas há momentos em que um crítico verdadeiramente arrisca algo, e isso ocorre na descoberta e na defesa do novo. Noite passada, eu experimentei algo novo, uma refeição extraordinária preparada por uma fonte singularmente inesperada. Dizer que tanto a refeição quanto quem a preparou desafiaram meus preconceitos é uma grosseira simplificação. Ambos me abalaram em meu âmago. No passado, não fiz segredo do meu desdenho pelo famoso lema do Chefe Gusteau: Qualquer um pode cozinhar. Mas só agora verdadeiramente percebo o que ele queria dizer. Nem todo mundo pode se tornar um grande artista, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar. É difícil imaginar alguém com origem mais humilde do que o gênio agora cozinhando no restaurante Gusteau’s e quem, na opinião deste crítico, não é nada menos do que o maior chef da França. Estarei voltando ao Gusteau’s em breve, faminto por mais”.
A parte em negrito conclui tão bem a história do filme e de forma tão elegante que fica impossível de não se emocionar ou ficar admirado com a qualidade do roteiro dessa animação que consegue criar uma mensagem tão profunda a partir de uma premissa tão banal.
Temperado na medida certa com humor (sem precisar apelar pro escatologismo, o que é um grande feito em um filme que envolve ratos), drama (sem aqueles momentos melosos além da conta presentes em qualquer animação) e uma história original e cheia de personagens igualmente interessantes Ratatouille é uma obra prima.
Pena que não foi premiada como deveria.
Torci muito para que o filme ganhasse o Oscar de roteiro original, mas infelizmente Juno acabou levando. Obviamente isso praticamente me obrigou a ir ao cinema assistir Juno para constatar se a história da adolescente grávida superada a jornada do roedor Remy.
Vou colocar as críticas feitas pelo Pablo do Cinema em Cena (morra Trash :smile)com o objetivo de informação e pra facilitar minha avaliação (leiam se quiserem) já que concordo com muito das duas críticas:
http://www.starstore.com/acatalog/ratatouille-one-sheet-l.jpg
Ratatouille
Direção: Brad Bird
Roteiro: Brad Bird
Elenco: Peter O`Toole (Anton Ego - voz), Ian Holm (Skinner - voz), Janeane Garofalo (Collette - voz), Brian Dennehy (Django - voz), Brad Garrett (Auguste Gusteau - voz), Patton Oswalt (Remy - voz), Lou Romano (Linguini - voz), Peter Sohn (Emile - voz)
Sinopse: Um ambicioso ratinho francês chamado Remy sonha em se tornar um grande chef de cozinha. Para realizar seu sonho, Remy leva sua família do interior da França para o coração de Paris. Nessa jornada, acaba chegando por mero acaso logo no restaurante do seu chef predileto, Auguste Gusteau. Quando Remy ajuda a criar a receita de uma sopa única, acaba dando início a uma incrível e emocionante corrida de ratos em toda a cidade, o que permite a ele conquistar o impossível e o seu verdadeiro dom.
À primeira vista, a mensagem defendida por Ratatouille (“Qualquer um pode cozinhar.”) pode soar como contradição direta àquela divulgada por Os Incríveis, brilhante trabalho anterior do cineasta Brad Bird (“Eles sempre encontram um meio de celebrar a mediocridade!”) – afinal, como dizia Síndrome naquele filme, se “todos forem Super” (leia-se: souberem cozinhar), “ninguém mais será” (leia-se: cozinhar bem será algo prosaico, sem valor). Aos poucos, porém, o verdadeiro significado por trás das palavras do celebrado chef Gusteau (voz de Brad Garrett) se revela com clareza, estabelecendo uma fascinante continuidade temática com Os Incríveis: nem todos podem ser “especiais”, mas o talento e o magnífico podem surgir em qualquer lugar, cabendo ao abençoado com este dom esforçar-se para refinar ao máximo suas habilidades – e não fazê-lo seria algo tão criminoso quanto contentar-se com o banal.
Este é o risco que corre Remy (Oswalt), cujo talento para a culinária transforma-o em um preciosista admirável, um verdadeiro artista sempre comprometido com sua Criação: testemunhar uma sopa sendo arruinada por um cozinheiro sem talento, por exemplo, pode se transformar numa verdadeira tortura para este brilhante chef amador – e confesso que sua habilidade natural para criar receitas e combinar sabores aparentemente díspares me fez lembrar do amaldiçoado (ou abençoado, dependendo da interpretação) protagonista do excepcional Perfume. Aliás, assim como Jean-Baptiste Grenouille, Remy tem uma origem absurdamente humilde que serve como imenso obstáculo à plena realização de seus sonhos: ele é um rato. E se há algo que definitivamente não é bem-vindo na cozinha de um restaurante luxuoso é um roedor.
Evitando transformar seu herói em uma criatura excessivamente fofinha que nos faça esquecer de sua natureza asquerosa (e falo como um ser humano normal que detestaria descobrir que um rato preparou sua comida), Ratatouille torna Remy simpático, mas não a ponto de evitar que sintamos nojo diante da visão de dezenas de ratazanas percorrendo as prateleiras de uma despensa ou correndo pela sala de uma pequena casa. Da mesma forma, a equipe de Brad Bird mantém a lógica visual de Os Incríveis ao criar personagens humanos com características físicas marcantes que ajudam a estabelecer suas personalidades, fugindo de uma estética realista que tornaria tudo aborrecido: assim, o antipático Skinner (Holm) surge como um baixinho cabeçudo com um presunçoso bigodinho ralo, ao passo que o inseguro Linguini (Romano) exibe sua despretensão já através de seu narigão arredondado e dos cabelos desgrenhados. E se Colette (Garofalo) foge do padrão “cinturinha excessivamente fina, quadril largo e seios arredondados” tão freqüentemente empregados na criação de personagens femininas nas animações, isto não impede que ela surja atraente à sua própria maneira, substituindo o corpo de pin-up por uma personalidade forte que combina perfeitamente com sua luta para ser reconhecida por seus talentos culinários em um universo dominado por homens. Finalmente, a figura altiva mas sombria do crítico Anton Ego (O’Toole), com seus olhos fundos e braços longos, torna-o imediatamente intimidador sem transformá-lo em um monstro, o que é fundamental para o propósito da narrativa (mais sobre isso em um minuto).
Da mesma maneira, a qualidade da animação é impecável, como já poderíamos esperar da Pixar: observem, por exemplo, a maneira com que Linguini se movimenta quando controlado por Remy, lembrando claramente uma marionete, e perceba, também, a sutileza nos gestos de Skinner ao girar a garrafa de vinho cuidadosamente ao servir uma taça ao rapaz (os enólogos certamente apreciarão o detalhe) ou a expressão torturada de Colette ao lutar para conter seu impulso de desferir um tapa em alguém. Só é lamentável que, ao final dos créditos, os artistas da Pixar sintam a necessidade de alfinetar a técnica de motion capture através de um “certificado de garantia” que afirma que tudo foi criado por animação, sem a utilização de atores ligados a sensores: afinal, como artista que migrou da animação tradicional para a computadorizada (é dele, o clássico moderno O Gigante de Ferro), Brad Bird deveria ser a última pessoa a menosprezar novas formas de criar Arte – e o motion capture, afinal de contas, já originou obras-primas como O Expresso Polar e A Casa Monstro.
Provocações infantis à parte, o fato é que o design de produção de Ratatouille oferece um verdadeiro espetáculo: a Paris apresentada pelo filme é uma visão de tirar o fôlego, mas o longa não se esquece também de seus cenários interiores, concebendo-os de forma a auxiliar o roteiro a estabelecer o clima necessário em cada cena, como podemos constatar pelo escritório triste e amontoado de papéis utilizado pelo deprimido inspetor sanitário (num plano que dura 15 segundos, se muito), pelo restaurante iluminado de maneira aconchegante e elegante e, é claro, pelo espaço de trabalho de Anton Ego, com seu formato de caixão, o altar dedicado a si mesmo e a máquina de escrever que se assemelha a uma ameaçadora caveira.
E já que citei Ego pela segunda vez, é inevitável deter-me um pouco mais neste que se tornou meu personagem favorito do filme, por motivos óbvios (sua figura tornou-se, inclusive, meu avatar no MSN e no fórum do Cinema em Cena): inicialmente apresentado como um indivíduo arrogante e antipático que parece sentir prazer em destruir o trabalho alheio, Ego (sim, sim, eu sei) talvez seja interpretado como um ataque frontal à Crítica por aqueles que já têm uma tendência natural a condenar a natureza do trabalho destes profissionais. No entanto, creio que estas pessoas estarão equivocadas, já que, ao contrário do ataque infantil feito por M. Night Shyamalan em seu terrível A Dama na Água, Brad Bird acaba transformando Anton Ego naquele que deveria ser o exemplo perfeito do crítico que merece respeito irrestrito (talvez ele pudesse ter um visual menos... hum... nosferático, mas tudo bem). Explico: é fato que Ego parece determinado a destruir a reputação do Gusteau’s, o que poderia ser visto superficialmente como algo mesquinho e reprovável, revelando um senso de auto-importância que o motivaria a agir contra o restaurante. Porém, é então que ocorre a seguinte – e extremamente reveladora – conversa entre Linguini e o crítico:
- Você parece magro demais para alguém que diz gostar de comida. – provoca o primeiro.
- Eu não “gosto” de comida. Eu amo comida! Mas quando não gosto do que provei, eu não engulo.
Este diálogo é um reflexo perfeito da acusação de que o critico parece detestar a área que estuda (no meu caso, Cinema, obviamente), sentindo prazer descomedido em destruir as obras que analisa. Não duvido de que haja (maus) profissionais que de fato extravasem suas frustrações pessoais nas análises que publicam, mas o bom crítico é aquele que, em primeiro lugar, ama a Arte com a qual trabalha – e como qualquer pessoa que dedica amor incondicional a alguma coisa, o crítico simplesmente não pode tolerar o desrespeito ao objeto de sua paixão. Ver alguém tratar o Cinema como simples forma de ganhar fama e dinheiro ao mesmo tempo em que realiza filmes rasteiros que parecem ter sido criados sem qualquer interesse em seus aspectos estéticos e/ou narrativos é algo que, para o amante da Sétima Arte, se assemelha à reação de um religioso ao ver alguém defecar no altar de uma Igreja. E é isto que move Anton Ego: por amar a Culinária, ele despreza, inicialmente, a afirmação de Gusteau de que “qualquer um pode cozinhar” (só mais tarde ele compreenderá o que o chef quis dizer com isso) e, posteriormente, ele se enraivece ao constatar que o nome do restaurante está sendo emprestado à divulgação de comida congelada (o similar gastronômico dos filmes de Rob Schneider, imagino). No entanto, ao se deparar com a verdadeira Arte, o bom critico não hesita em defendê-la com unhas e dentes, mesmo que para isso corra o risco de sacrificar sua posição, afastar leitores ou – o inimaginável! – assumir posturas que entrem em contradição direta com posições passadas (serei capaz de defender Schneider quando este fizer um bom filme?).
Como você pode perceber, Ratatouille, assim como Os Incríveis e O Gigante de Ferro, representa não apenas uma diversão imperdível (suas seqüências de ação são sensacionais e seu senso de humor é invejável) como também pode dar origem a discussões estimulantes sobre a natureza da Arte, do artista e do estudioso – e há até mesmo uma interessante leitura sobre o racismo em sua narrativa. Em outras palavras, este é o tipo de prato cujos méritos Anton Ego não hesitaria um segundo em alardear em alto e bom som. E, portanto, sigo aqui o exemplo do mestre.
06 de Julho de 2007
Link:http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_critica=6807&id_filme=2150&aba=critica
http://www.100video.com.br/UserFiles/Image/Filmes%202/juno_cartaz2.jpg
Juno
Direção: Jason Reitman
Roteiro: Diablo Cody
Elenco: Jennifer Garner, Allison Janney, Jason Bateman, Ellen Page (Juno), Michael Cera (Bleeker)
Sinopse: Uma adolescente precisa enfrentar uma gravidez não planejada e tomar difíceis decisões.
Estréia: 14/12/2007 (Original) 22/2/2008 (Brasil)
Seria fantástico se as pessoas conversassem, em seu dia-a-dia, como os personagens de Juno, construindo diálogos que combinam uma estrutura elegante com um conteúdo rico em referências e um humor cortante e preciso. Oscilando entre a irreverência intelectualizada de obras como Harry e Sally – Feitos um para o Outro e a filosofia pop barata de Kevin Smith (que posteriormente revelaria sua natureza de mágico-de-um-truque-só), o roteiro deste longa merece créditos, portanto, pela maneira com que seus personagens se comunicam, o que o torna suficientemente charmoso para que seus defeitos possam passar despercebidos.
Escrito pela ex-stripper Diablo Cody, que aqui estréia como roteirista, o filme acompanha a trajetória da adolescente Juno MacGuff (Page), que, certo dia, descobre ter engravidado depois de uma única noite de sexo com seu melhor amigo, o tímido Paulie Bleeker (Cera, de Superbad). Depois de considerar brevemente a possibilidade de um aborto, a garota acaba optando por entregar o bebê a um casal que não consegue ter filhos, Mark e Vanessa Loring (Bateman e Garner), sendo apoiada na decisão por seu pai, Mac (Simmons), e sua madrasta, Bren (Janney).
Demonstrando uma clara e presunçosa satisfação com a suposta sofisticação de seus diálogos, o roteiro de Cody falha, em certo ponto, por permitir que constatemos que seus personagens sabem que conversam de maneira diferenciada. Ao contrário do Harry vivido por Billy Crystal no já citado Harry e Sally ou dos balconistas criados por Kevin Smith em seu filme de estréia, as criaturas que povoam Juno parecem ter consciência de que estão em um filme e sendo observadas pelo público, soltando piadinhas não porque querem comunicar algo, mas sim porque desejam provocar o riso do espectador. Além disso, como todos falam de maneira similar (com exceção da personagem de Garner, sobre a qual comentarei mais adiante), os discursos homogêneos falham por não estabelecerem as particularidades de cada indivíduo, o que é decepcionante. Aliás, creio que o sobrenome da família de Juno funciona como um verdadeiro ato falho da roteirista, remetendo ao mcguffin de Hitchcock e escancarando que aquelas pessoas não importam de fato, funcionando como mera desculpa para que Cody possa exibir seu talento e seu senso de humor irreverente.
Outro tropeço clássico de estreante cometido por Cody é confundir sua própria personalidade e sua experiência de vida com a de sua protagonista: Juno freqüentemente faz referências a elementos que não são de sua época (Diana Ross, Thundercats), mas sim contemporâneos da roteirista, o que a impede de se transformar numa pessoa real e a mantém apenas como a personagem de um filme. Aliás, este é o verdadeiro grande problema de Juno: quase ninguém ali se comporta como uma figura tridimensional, mas como simples bonecos programados para repetirem as falas afiadas de Cody – e isto prejudica o filme especialmente em seu primeiro ato, quando a calma e a ironia de Juno diante de sua gravidez soam implausíveis demais, sendo rivalizadas apenas pela reação absurda de seu pai diante da notícia, quando imediatamente faz uma piadinha em vez de se mostrar minimamente preocupado com o que aquilo significa para a vida de sua filha adolescente.
Felizmente para o filme e para o espectador, Juno conta com um trunfo na figura da pequena e adorável Ellen Page, que eu já havia elogiado fartamente ao escrever sobre MeninaMá.com, em 2006: entregando os diálogos auto-congratulatórios de Diablo Cody da maneira mais natural possível, ela encarna a natureza excessivamente crítica da personagem-título (algo comum à maioria dos adolescentes), mas nos convence de aquela garota em particular consegue manifestar este seu descaso pelos adultos de forma incrivelmente articulada. Porém, o fator mais importante na composição de Page reside nos indícios sutis de imaturidade da personagem: Juno pode se julgar sofisticada e precoce, mas está longe de ser tão madura quanto gosta de acreditar – e, assim, o roteiro acerta ao mostrar que boa parte das previsões feitas pela madrasta da garota vem a se confirmar, já que a menina não apenas sofre como também magoa outras pessoas em função de sua incapacidade de perceber a complexidade das situações nas quais se envolve. (E quando ela escreve um bilhete em seu carro, confesso que temi se tratar de mais uma tirada sarcástica, sendo agradavelmente surpreendido ao constatar se tratar de algo que uma criança escreveria.)
Em contrapartida, para quem se julga tão criativa, Cody se entrega freqüentemente a recursos terrivelmente formulaicos ou simplesmente mal desenvolvidos, como a paixão de Juno por Paulie ou – ainda pior – a crise vivida pelo casal Loring, que parece ter sido introduzida no roteiro depois que a autora percebeu a ausência de qualquer conflito em sua história. Porém, mais uma vez um desastre é evitado graças ao elenco, já que Jason Bateman e Jennifer Garner (especialmente esta última) criam os únicos personagens tridimensionais da narrativa. Surgindo inicialmente tensa e metódica, Vanessa é uma adulta responsável (a única em todo o filme) que não usa falas repletas de sarcasmo como escudo contra o mundo: ela sofre, faz auto-questionamentos e compreende plenamente as dificuldades da situação na qual mergulha – e Garner se mostra tocante ao criar coragem para pedir para tocar na barriga de Juno ou ao demonstrar uma tristeza quase imperceptível quando a menina faz um comentário cruel (sem perceber) sobre sua “sorte” por não estar grávida. Além disso, é aqui que Diablo Cody realmente acerta como roteirista ao criar um arco dramático sutil que talvez nem seja percebido por boa parte dos espectadores: inicialmente obcecada com a disciplina e a organização, Vanessa só parece realmente feliz quando finalmente a vemos em meio a uma bagunça gigantesca que denuncia sua nova condição como mulher (e ser humano).
Enquanto isso, Bateman também surpreende com a riqueza de sua performance: observem, por exemplo, o momento em que Juno pergunta se ele está entusiasmado com a idéia de ser pai e Mark responde positivamente sem conseguir ocultar uma clara insegurança em seu olhar. Da mesma maneira, sua fragilidade emocional e sua imaturidade o contrapõem de maneira inteligente à esposa – e sua paixonite por Juno funciona dramaticamente justamente por expor sua incapacidade de perceber que esta é praticamente uma criança, já que ele se deixa confundir pelos interesses que dividem. Por outro lado, o filme peca por não ilustrar com clareza o peso que sua relação com Vanessa representa, o que é uma pena.
Enriquecido por uma trilha tremendamente doce e evocativa que investe em canções que exibem uma infantilidade reveladora em suas letras e melodias (especialmente aquelas interpretadas pelo Moldy Peaches), Juno finalmente supera seu primeiro ato artificial e incômodo, tornando-se gradualmente mais natural em seu desenvolvimento, quando finalmente nos acostumamos à artificialidade de seus diálogos. E se a direção de Jason Reitman não compromete, tampouco se revela inspirada (a câmera lenta no momento do parto é embaraçosa) – e sua indicação ao Oscar é um dos poucos absurdos realmente ofensivos da cerimônia de 2008.
Divertido e relativamente tocante (graças, principalmente, a Page e Garner), Juno é um filme que jamais alcança a força dramática de Pequena Miss Sunshine, com o qual vem sendo insistente e equivocadamente comparado, mas que consegue encantar ao seu próprio modo. Isto não justifica sua inclusão entre os supostos cinco melhores filmes do ano, mas o fato de ter inspirado reações exageradas por parte da Academia também não deve ser usado contra este longa que, se encarado de maneira objetiva, tem mais acertos do que erros.
22 de Fevereiro de 2008
Link:http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_critica=7032&id_filme=4920&aba=critica
Comparando os Roteiros (contém Spoilers)
Sem rodeios eu já digo que acho o roteiro de Ratatouille superior ao de Juno.
Considero Juno um bom filme, que tem sua força principal no carisma de sua protagonista e em seus diálogos afiados. O roteiro em si não tem nada de novo ou tão acima da média. Como foi percebido pelo Pablo na crítica dele, mesmo que os diálogos do filme sejam ótimos, tudo soa muito artificial.
A situação da gravidez é tratada de uma forma tão displicente por todos do filme que chega a ser surreal. Juno passa pelo filme todo sem praticamente se dar conta da importância de uma gravidez. E fora a personagem de Jennifer Gardner, ninguém mais no filme parece perceber isso.
A frieza com que Juno planeja simplesmente entregar a criança para outros pais chega a ser assustadora. Passei o fime todo esperando alguma evolução na personalidade de Juno, mas no fim tudo o que temos é uma protagonista que apesar de ter vivido o drama de ser mãe solteira não aprendeu nada e ainda terminou exatamente como começou na história.
No fim, não parece haver nenhuma mensagem, nenhuma constatação, nenhuma evolução real da história. Enfim, achei o final do filme bem vazio.
Já Ratatouille é totalmente original. Uma idéia original que tem uma concepção tão absurda que serve de material para a própria resolução da história do filme. Basta ver a reação dos cozinheiros (principalmente Colette) frente a revelação de Linguini no fim da película.
E mais, Ratatouille jamais cai no lugar comum. Por mais que o telespectador pense que vai "adivinhar" alguns momentos da história ou que se tenha a impressão de que veremos algum momento genérico presente em qualquer animação, o que temos são situações sempre inesperadas ou interessantes que fogem a qualquer clichê do gênero.
Não que o filme fuja do "Final Feliz" afinal, ainda é uma animação, mas seu final é o mais diferenciado possível, emplacando várias mensagens de poder mostrando que de algo de origem simples e comum pode surgir algo maravilhoso e inesperado desde que cada um se esforçe e siga seu próprio caminho sem esquecer suas origens ou permanecer confortavelmente à sombra de outros.
Resumindo, não há como não se admirar a forma com a animação consegue ser tal original, profunda e sincera em dentro de um sistema tão pasteurizado quanto Hollywood (que justamente vive tempos tão pouco criativos)
Em sua conclusão Ratatoiuille tem dois momentos marcantes: Remy se recusando a companhar Linguini ou sua família, adotando seu próprio caminho, e o monólogo de Ego ao fazer a crítica do restaurante:
“De várias maneiras, o trabalho de um crítico é fácil. Nós arriscamos muito pouco e, a despeito disso, desfrutamos de uma vantagem sobre aqueles que submetem seu trabalho, e a si próprios, ao nosso julgamento. Nós nos refestelamos escrevendo crítica negativa, que é divertida de escrever e de ler. Mas a verdade amarga que nós, críticos, temos que encarar é o fato de que, no grande esquema das coisas, até o lixo medíocre tem mais significado do que a nossa crítica assim o designando. Mas há momentos em que um crítico verdadeiramente arrisca algo, e isso ocorre na descoberta e na defesa do novo. Noite passada, eu experimentei algo novo, uma refeição extraordinária preparada por uma fonte singularmente inesperada. Dizer que tanto a refeição quanto quem a preparou desafiaram meus preconceitos é uma grosseira simplificação. Ambos me abalaram em meu âmago. No passado, não fiz segredo do meu desdenho pelo famoso lema do Chefe Gusteau: Qualquer um pode cozinhar. Mas só agora verdadeiramente percebo o que ele queria dizer. Nem todo mundo pode se tornar um grande artista, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar. É difícil imaginar alguém com origem mais humilde do que o gênio agora cozinhando no restaurante Gusteau’s e quem, na opinião deste crítico, não é nada menos do que o maior chef da França. Estarei voltando ao Gusteau’s em breve, faminto por mais”.
A parte em negrito conclui tão bem a história do filme e de forma tão elegante que fica impossível de não se emocionar ou ficar admirado com a qualidade do roteiro dessa animação que consegue criar uma mensagem tão profunda a partir de uma premissa tão banal.
Temperado na medida certa com humor (sem precisar apelar pro escatologismo, o que é um grande feito em um filme que envolve ratos), drama (sem aqueles momentos melosos além da conta presentes em qualquer animação) e uma história original e cheia de personagens igualmente interessantes Ratatouille é uma obra prima.
Pena que não foi premiada como deveria.